21/12/2017

Seja bem-vindo ao Movimento Transformador Massivo

Estamos vivendo momento de acelerada transformação. Chegamos a um ponto no qual a combinação de fatores históricos, sociológicos, políticos, antropológicos, ecológicos e tecnológicos indicam o curso de profundas e rápidas mudanças. Eventos aparentemente desconectados como o fim da escravidão, a hiperurbanização, as mudanças climáticas e a exponencialidade tecnológica (Lei de Moore) se conjugam para possibilitar a eclosão de nova realidade para a humanidade. Vamos aos fatos, em rápida progressão histórica. Poucas pessoas têm em mente que até o final do Século XVIII cerca de três quartos da humanidade vivia sob regime de escravidão ou servidão. O século XIX assistiu ao desmoronamento da lógica segundo a qual seria impossível a existência de mercados sem escravidão. Como sequência necessária, o século XX viu brotar os mais bem-sucedidos movimentos sociais pela igualdade entre os seres humanos, que resultaram em significativas conquistas pela igualdade racial e de gênero. Além disso, desde os anos 1970, diversos regimes autoritários e centralizadores entraram em colapso e centenas de milhões de pessoas, sobretudo na Europa e América Latina, reconquistaram a liberdade de expressão e a possibilidade da ação cívica. O campo da educação passou por profundas alterações quantitativas. Entre 1970 e 1985 a alfabetização de adultos no mundo desenvolvido cresceu de 43% para 60% e, além disso, apenas durante os anos 1970 o número de universidades no mundo dobrou. Também no século XX, aperfeiçoamos e adotamos o conceito de Direitos Humanos. A saúde das populações melhorou muitíssimo durante o século XX. Graças a notáveis avanços científicos (como a simples penicilina) e a amplos programas de saúde pública, a expectativa de vida foi de 25 para 63 anos nos países em desenvolvimento e de 45 para 75 anos nos países desenvolvidos. A tudo isso se seguiu extraordinário câmbio demográfico, uma vez que pela primeira vez na história da humanidade mais pessoas passaram a viver em cidades do que no campo. A urbanização massiva favoreceu o crescimento das classes médias em países em desenvolvimento como Brasil, China, Indonésia, criando contingentes populacionais com mais acesso e maior índice de valorização da educação como ferramenta para melhorar sua condição socioeconômica. No campo ecológico, em 1987 ocorreu a divulgação do Relatório Bruntdland elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente da ONU e apropriadamente denominado “Nosso Futuro Comum”. Com isso adquirimos a consciência factual das mudanças climáticas em curso e percebemos que o fato de vivermos todos em um único planeta, cujos recursos naturais são finitos, implica aquisição de novo valor de solidariedade universal, até então não compreendido adequadamente. Pela primeira vez temos a consciência de que nosso destino é solidário com o destino do planeta. Também descobrimos que não mais somos apenas parte da natureza, pois nos convertemos em força da natureza. Somos a única espécie capaz de gerar sua própria extinção. Em contrapartida, também adquirimos a compreensão de que somos capazes de resolver problemas exponencialmente. Por isso, entramos no século XXI com um quadro de transformações desenhado: centenas de milhões de pessoas foram libertadas de preconceitos e de visões totalitárias, passaram a viver em cidades, tiveram mais acesso a saúde, educação e tecnologia; bilhões de cidadãos experimentaram o acesso à comunicação e à informação. Por outro lado, problemas complexos e gigantescos em todo o mundo se desvelaram nas telas de nossos smartphones: intolerância, violência religiosa e terrorismo; estados incapazes e falidos; riqueza abundante geradora de miséria extrema. Em 2015, as 8 pessoas mais abastadas do mundo detinham riqueza equivalente aos 3,5 bilhões de pessoas mais pobres do planeta (OXFAM, 2017). Esses fatos chocantes fazem com que as pessoas não mais estejam dispostas a acreditar que as instituições tradicionais, como estados, corporações, igrejas ou universidades sejam capazes de oferecer a solução. As ideologias também não resolveram os problemas, fazendo com que os movimentos cívicos – sobretudo entre os mais jovens – se façam cada vez mais desideologizados, ou seja, sem a necessidade de adesão a rótulos ideológicos. As poderosas inovações tecnológicas e sobretudo digitais, como a web, os smartphones, as tecnologias como Wi-fi, 3G e 4G de transmissão de dados, que operam associadas a ferramentas como Google, Wikipédia, Facebook, Whatsapp, Youtube, TED etc. permitiram que centenas de milhões de cidadãos conquistassem conexões e conhecimento a baixo custo. E todas essas ferramentas surgiram subitamente, apenas a partir de 2007. Hoje, assistimos o nascimento de nova geração de jovens – os nativos digitais – com capacidade inédita para operar, por meio do mundo virtual, alterações concretas na realidade. Jamais na história da humanidade os jovens, chamados geração Y e Z, desfrutaram de tanto poder transformador. Jovens com propósito transformador. É, portanto, desse conjunto de fatores que surge o empreendedorismo social, como movimento transformador, capaz de impactar positivamente a sociedade em larga escala. O empreendedorismo social requalifica a noção econômica de empreendedor, ressignifica a ideia de empreendedorismo, reintroduz a ética nas relações econômicas – entrega propósito ao agir econômico – e se utiliza precisamente da poderosa intersecção criadora entre forças humanas e tecnológicas que foram subitamente liberadas. O empreendedorismo social é movimento contemporâneo amplo, cívico, democrático, transversal, descentralizado, inovador e exponencial, ou seja, é um movimento transformador massivo. Seja bem-vindo a esse movimento!   *Artigo escrito por James Marins, presidente do Instituto Legado de Empreendedorismo Social em Curitiba. Doutor em Direito do Estado pela PUC-SP (BR), Pós-Doutor pela Universitat de Barcelona (ES), Professor Titular dos Programas de Mestrado e Doutorado em Direito Econômico e Social da PUC-PR (licenciado) e fundador do Programa de Pós-Graduação em Empreendedorismo e Negócios Sociais da FAE Business School. *Artigo publicado pelo Giro Sustentável, da Gazeta do Povo.  

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24/01/2017

Municípios paranaenses com pior IDH são prioridade de programa de aceleração do terceiro setor

O Instituto Legado está em busca de organizações sociais dispostas a mudar a realidade de 25 municípios da Região Metropolitana de Curitiba e proximidades que ocupam as piores posições no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do IBGE. Em sua quinta edição, o Projeto Legado oferece programa de capacitações estratégicas gratuito para instituições do terceiro setor e negócios sociais e, desta vez, tem como objetivo principal atingir essas localidades estatisticamente carentes. “Nossa meta é democratizar o conhecimento que ofertamos e sabemos que investir nessas regiões que são geograficamente próximas de nossa atuação, mas socialmente distantes é a melhor estratégia para quem pensa em impacto social”, explica Beatriz Groxco, gestora do Projeto Legado e idealizadora da força-tarefa em busca de iniciativas sociais das cidades com pior IDH do Paraná. Para estabelecer a lista de prioridades do Projeto Legado 2017, a equipe do Instituto Legado pesquisou os municípios localizados em um raio de distância de até 200 km de Curitiba, cidade-sede do Instituto Legado, e analisou o IDH de cada município, selecionando os piores. A partir desse diagnóstico, foram destacados aqueles com pior desempenho, segundo o IBGE, que leva em consideração itens como moradia, educação e saúde. Entre os municípios identificados, o caso mais crítico é Doutor Ullysses, com pior IDH do estado (0,54), localizado a 125km da capital do Paraná, cujo IDH é de 0,82 (a nota máxima é 1). O segundo pior IDH do estado é representado por Cerro Azul, com taxa de 0,57. Na lista das selecionadas, o município com melhor desempenho é Almirante Tamandaré, com 0,69. “O Instituto Legado acredita que o empreendedorismo social é uma ferramenta eficaz para resolver uma gama de problemas sociais que são demonstrados pelo IDH e apostamos que nossa atuação nestas regiões, fomentando o protagonismo das comunidades locais, pode ser um bom ponto de partida para o combate desses problemas”, comenta James Marins, presidente do Instituto Legado. Além desse ranking prioritário, integram a área de interesse do programa todos os 29 municípios da RMC. As incrições para o Projeto Legado 2017 estão abertas até 15 de março. Podem se inscrever associações, organizações não governamentais, fundações, institutos e negócios sociais de todo o Brasil que tenham no mínimo um ano de funcionamento. Os interessados devem preencher um questionário online no site do Instituto Legado (www.institutolegado.org/pl2017) e enviar um vídeo de 2 minutos. Não há cobrança de nenhuma taxa. O edital completo, com todos os pré-requisitos e exigências, pode ser acessado no site oficial. Em quatro anos de atuação, o programa de aceleração do terceiro setor já capacitou e apoiou gratuitamente 80 iniciativas com propósito social e/ou ambiental lideradas por organizações da sociedade civil, empresas com propósito social e empreendedores sociais, fortalecendo e inspirando o empreendedorismo no setor social. O curso gratuito com duração de um ano inclui capacitação nas diversas áreas que compreendem a administração de uma organização social, com conceitos de gestão, legislação, captação de recursos e comunicação. Além do conteúdo programático, o projeto pretende conectar pessoas com objetivos em comum em eventos de rede que reúnem todas as iniciativas já atendidas pelo instituto, além de outras iniciativas parceiras e referenciais. Os participantes tem ainda acesso a assessorias especializadas que prestam suporte para solução de determinadas demandas e são incentivados por meio de desafios temáticos, que os estimula a praticar o conteúdo aprendido. O Projeto Legado 2017 tem abertura oficial dia 28 de março e encerramento no fim de novembro. Projeto Legado dobra número de vagas e amplia atividades Desde 2013, o Projeto Legado seleciona, capacita e investe em 20 organizações por ano, especialmente de Curitiba e Região Metropolitana. Na última edição, o programa expandiu e abriu o edital para todo o país, recebendo inscrições de todas as regiões. Para 2017 o passo deve ser ainda mais largo: o edital prevê a seleção inicial de 40 nomes, proporcionando que mais iniciativas sejam beneficiadas. Durante a primeira fase do programa, as participantes receberão cerca de 60h em treinamentos e serão reavaliadas para encaminhamento para a segunda fase. Na etapa seguinte, as selecionadas serão divididas em dois grupos, de acordo com a realidade e a fase de desenvolvimento. Aquelas julgadas mais aptas, serão preparadas ao longo do segundo semestre para a expansão de impacto e a possibilidade de conquistar um prêmio financeiro no valor de R$ 10 mil que irá auxiliar na execução das soluções para as causas sociais em que atuam. A segunda metade da turma será encaminhada para a fase de fortalecimento organizacional, com conteúdos próprios para consolidação de suas organizações. Essa fase não existia nas edições anteriores do Legado e está sendo implantada com o objetivo de dar ainda mais subsídio para que as beneficiadas cresçam e ampliem sua atuação. “O nosso objetivo é proporcionar meios eficazes para ampliar significativamente o impacto de iniciativas sociais, com capacitações estratégicas, rede de mentores e padrinhos, desafios práticos e possibilidade de investimento financeiro ao final do processo de aprendizagem”, ressalta Beatriz Groxco. Verifique a lista de cidades mapeadas pelo Projeto Legado: 1-    Doutor Ulysses 2-    Cerro Azul 3-    Guaraqueçaba 4-    Inácio Martins 5-    Tunas do Paraná 6-    São João Triunfo 7-    Tijucas do Sul 8-    Itaperuçu 9-    Bocaiúva do Sul 10- Fernandes Pinheiro 11- Ipiranga 12- Mandirituba 13- Antonio Olinto 14- Agudos do Sul 15- Imbituba 16- Sengés 17- Tibagi 18- Adrianópolis 19- Teixeira Soares 20- Rebouças 21- Rio Branco do Sul 22- Quitandinha 23- Contenda 24- Morretes 25- Almirante Tamandaré Saiba mais em www.institutolegado.org

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06/12/2016

Instituto Legado reúne 80 instituições sociais e anuncia vencedoras do Prêmio Cereja do Bolo 2016

Para celebrar a conclusão da 4ª edição do Projeto Legado e anunciar as organizações sociais que conquistaram o investimento financeiro, o Instituto Legado reúne na próxima quarta-feira (07), a partir das 19h, todas as organizações que já passaram pelo programa de capacitação e integram a Rede Legado. São 80 iniciativas sociais que receberam um ano de profissionalização em empreendedorismo social e agora se reencontram para trocar experiências, fortalecer conexões e conhecer as vencedoras do Prêmio Cereja do Bolo 2016. “A entrega do prêmio financeiro é sempre um momento muito especial para o Instituto e também para as organizações que integram nossa rede, é o momento de coroação do trabalho que é feito durante o ano e a chance que temos de potencializar nosso impacto fortalecendo parcerias entre pessoas que tem propósito social”, afirma James Marins, presidente do Instituto Legado. O encontro também é uma oportunidade para que pessoas e empresas interessadas no empreendedorismo social conheçam o resultado das atividades desenvolvidas em 2016 e discutam propostas para o terceiro setor. Desde 2013, o Projeto Legado seleciona anualmente 20 instituições do setor e oferta um ano de atividades gratuitas, incluindo conhecimento sobre gestão, comunicação, finanças e assessoria jurídica. Um dos avanços de 2016 foi a abertura de edital para outras regiões do Brasil. Graças a essa ampliação, a ONG Pontes do Amor, de Uberlândia (MG), pôde aprimorar o trabalho que desempenha em prol da adoção legal e a convivência familiar. “O Legado foi um divisor de águas que nos levou a revisar nossa identidade organizacional e processos, e ainda nos trouxe ferramentas e metodologia para gestão de projetos; valeu a pena o investimento em viagens, pois a qualidade do treinamento foi classe A”, avalia Sara Vargas, coordenadora da instituição e finalista do Projeto Legado 2016. Ao fim do curso anual, os participantes produzem um projeto de expansão de impacto e disputam um prêmio financeiro com intuito de ampliar as atividades e soluções da causa social ou ambiental a que se dedicam. Oito ONGs estão na fase final e na expectativa de conquistar R$ 10 mil para aplicação em 2017. Por meio desse programa de aceleração, 11 iniciativas já foram prestigiadas com financiamento direto, além de outras 71 que receberam investimento por meio do conteúdo programático. O edital de inscrições para a próxima edição será divulgado em breve. Turma de primeira Além da celebração do Projeto Legado 2016, o evento também marca a formatura da primeira turma de Pós-Graduação em Empreendedorismo e Negócios Sociais, um curso inédito no Sul do País desenvolvido pelo Instituto Legado em parceria com a FAE Business School. O encontro ainda contará com a presença de Marcelo Estraviz, especialista em investimento de impacto social que ministrará, na próxima quarta-feira (08) um dia de oficina de captação de recursos no Legado SocialWorking. Interessados em participar da celebração e da oficina podem confirmar presença pelo site. Sobre o Instituto Legado O Instituto Legado acredita que o Empreendedorismo Social é uma ferramenta eficaz para o desenvolvimento econômico e se propõe a ampliar o impacto de iniciativas sociais, causar transformações e deixar um legado. Atua em três frentes estratégicas: Capacitação, Educação Formal e Fortalecimento de Rede. A capacitação é executada por meio do Projeto Legado, um programa de aceleração que seleciona, capacita, conecta e investe em organizações sociais de alto potencial de impacto. Realizado desde 2011, o Projeto já apoiou 80 organizações. A segunda frente é a Educação Formal que, em parceria com a FAE Business School e o Amani Institute estruturou a primeira pós-graduação em empreendedorismo e negócios sociais do Sul do Brasil. A terceira frente é o Fortalecimento de Rede, que promove e apoia ações sobre Empreendedorismo, Inovação, Negócios Sociais e Investimento de Impacto com a intenção de tornar Curitiba pólo de discussões de relevância nacional e internacional e recentemente criou o SocialWorking, um coworking exclusivo para negócios sociais. Serviço:  07/12/2016, a partir das 19h
Local: Av. Visconde de Guarapuava, 3263, Auditório 2o andar. Instituto Legado Rua São Pedro, 696 – Cabral. (41) 3503-2812 http://institutolegado.org www.facebook.com/InstitutoLegado

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30/04/2015

A dignidade humana e o empreendedorismo social de Muhammad Yunus

Há mais de dois séculos, o filósofo Immanuel Kant já afirmava que respeitar a dignidade humana é tratar as pessoas como um fim em si mesmas e não apenas como um meio. Ele explorou a ideia de que tudo que identificamos na vida tem um preço ou uma dignidade; o que tem preço é substituível e tem um equivalente, já o que não possui equivalente possui uma dignidade. Neste conceito, coisas possuem preço e indivíduos, dignidade. Conceito aparentemente simples, mas muito significativo. Embora expressa na Constituição Federal já no art. 1.º como um dos fundamentos do Estado democrático de direito, e mencionada pelo menos mais quatro vezes na nossa lei maior, a discussão sobre dignidade humana e direitos humanos ainda habita uma zona de penumbra. Tais ideias aparentam estar ladeadas por conceitos teóricos e filosóficos, distantes da realidade fática vivenciada no dia a dia. Como uma das expressões desta proteção normativa, o art. 203 da Constituição brasileira prevê que a assistência social será prestada a quem dela necessitar. E vai além, dispondo que a ordem econômica tem também por fim assegurar a todos uma existência digna. Contudo, em tempos de lógica utilitarista, muito se discute a respeito da efetividade de ações assistencialistas cujo objetivo é prestar ajuda a células sociais carentes de uma comunidade para retirá-las da condição de necessitadas. A controvérsia se constitui em sabermos se ações assistencialistas de fato contribuem para um progresso social sustentável ou se seriam apenas algo paliativo que trata o efeito e não a causa do problema. Não há dúvida de que políticas assistencialistas – na medida certa – impactam positivamente a sociedade e aliviam sintomas importantes de comunidades que muitas vezes vivem um desequilíbrio social patológico. Mas a verdade é que só isso não mais basta. A luta pela promoção dos direitos humanos precisa ir adiante e não só concentrar os esforços tratando os sintomas, mas investir em prevenir a própria doença na busca pelo respeito à dignidade humana. E foi com essa visão que o economista Muhammad Yunus, a quem teremos a honra de ouvir no próximo dia 3, em palestra ministrada no Teatro Guaíra, em Curitiba, trouxe ao mundo o conceito de negócio social. Como o próprio nome expressa, trata-se antes de mais nada de um negócio propriamente dito, que se ampara em estratégias de mercado e no autossustento. Porém, por outro lado, é desenvolvido para atingir um objetivo social, que envolve a busca de soluções para a pobreza, a precariedade da educação e a desigualdade social, além da preservação do meio ambiente, não existindo apenas a motivação financeira. Ao perceber a desigualdade social do seu país, Bangladesh, e a dificuldade das pessoas de superarem a condição de pobreza, Yunus criou o Banco Grameen, com a ideia de oferecer empréstimos à população carente sem necessidade de garantias e com menos burocracia. A informalidade negocial e a cobrança da taxa de juro básica mais próxima do mercado local permitiram à população de baixa renda ter acesso ao capital, por meio do qual as pessoas desenvolveram pequenos negócios e se tornaram autossustentáveis. E o impacto social do seu projeto foi além do vértice econômico: as mulheres representam 97% dos beneficiários dos empréstimos, em um país cuja maioria religiosa é islâmica. Mas qual a diferença entre uma organização sem fins lucrativos e um negócio social? Ao contrário das organizações sem fins lucrativos, um negócio social busca gerar um lucro modesto, que deve ser usado para expandir as operações da empresa, aprimorar o produto ou serviço ou aplicar em ações que tenham como objetivo promover a sua missão social. Por outro lado, a mão de obra envolvida recebe remuneração de mercado e boas condições de trabalho. Há linhas conceituais mais ampliativas que vão além, defendendo que os dividendos, desde que modestos, podem ser distribuídos entre todos os participantes da cadeia. Digno merecedor do Prêmio Nobel da Paz de 2006, não há dúvidas de que Yunus vem oferecendo uma grande contribuição ao mundo e, assim, demonstrando que o empreendedorismo social pode ser uma ferramenta para a promoção de uma sociedade menos desigual e mais sustentável. Exemplo de comprometimento e responsabilidade social que merece ser copiado. E, se coisas possuem preço e indivíduos, dignidade, conforme já nos convenceu Kant, é certo que o desenvolvimento de negócios sociais que busquem uma sociedade com menos desigualdade para todos é, sem dúvida, um exemplo de respeito à dignidade humana. Como bem afirmou o comitê responsável pelo Prêmio Nobel ao honrar o projeto transformador de Yunus, “o desenvolvimento a partir da base contribui para o avanço da democracia e dos direitos humanos”. Respaldo na legislação o Brasil já tem de sobra.

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